Passámos tanto tempo sem nos falar, deixamos que durante anos o silêncio tomasse conta de nós, Pai. Escrevi este texto milhões de vezes na minha cabeça mas cada vez que parava para o escrever, algo me travava [...] Nunca te vi naquele estado, nunca na vida tinhas sido operado e agora foste, ao coração. No dia da tua operação mil e uma coisas se apoderaram de mim, se algo te acontecesse ia arrepender-me para o resto da minha vida, porque tenho tanto para te dizer, mas quando olho para ti não consigo fazê-lo. Vi-te no segundo dia, entrei e o mundo caiu-me. A imagem de ti deitado com tubos ligados, vai ficar para sempre na minha memória. Cheguei perto de ti e foi quando me disseste que gostavas muito de mim e até hoje não sabia se tinhas ouvido ou não, pois quando disse que também gostava muito de ti, os teus olhos já se tinham fechado.
Eu senti o meu mundo a parar, senti-me vazia cada vez que te ia visitar e ficava parada a olhar para ti (...) e quando começamos a falar, foi como se te tivesse conhecido pela primeira vez, pai. Aguentei-me perto de ti, perto da mãe e perto de todo o mundo, mas sozinha chorei, chorei tanto que morri mais uma vez por dentro. E o mundo dá tantas voltas não é? Até então as magoas e as memorias do passado sobrepunham-se e hoje quebrei o gelo pra te falar. Vi as lágrimas no teu olhar, vi a dor, vi o medo e vi o quanto forte tu és. Espero que tudo mude, espero tanto de ti.. a verdade é uma, Pai, eu nunca tive tanto medo de perder alguém como tive de te perder a ti [...]
Sem comentários:
Enviar um comentário